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Após os acontecimentos de 23/04/1881, a cidade reagiu e nasceu a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo.

No dia 23 de Abril de 1881, pelas 06h30, deram as torres das igrejas sinal de incêndio, que se manifestou no armazém de enxofre que a empresa Araújo & Cª, do Porto, possuía na Rua do Cais (hoje Rua Prior do Crato), desta cidade. O armazém continha 1.016 sacas daquele produto e uma porção de urze seca, que servia para a estivagem de navios.

Compareceu a Companhia de Bombeiros Municipais (1) com os respectivos aparelhos, quase todo o Regimento de Infantaria 3, muitos guardas da fiscalização externa, e outras pessoas que, sob as ordens imediatas das autoridades, também presentes, principiaram a combater o incêndio, que ameaçava tomar enormes proporções.

Os vapores do enxofre a arder espalharam-se de maneira tal que sem o risco de asfixia fulminante ninguém se podia aproximar.

Afrontando ainda assim, com denodo extraordinário aquela atmosfera irrespirável, que até mesmo a grande distância incomodava, os bombeiros municipais, coadjuvados pelos porta-machados de infantaria 3, guardas de fiscalização e muitos particulares, começaram a inundar, com o serviço simultâneo de 3 bombas, pelo lado do cais e pela rua do mesmo nome, o 1º e 2ºs pavimentos do edifício incendiado. Apesar, porém, de todos os esforços e da ininterrupção do trabalho, dificultado pela estreiteza da rua e pela impossibilidade da entrada numa viela de 1 metro de largura (Viela do Enforcado), que separava a casa incendiada do edifício da alfandega, o fogo progredia sempre, o pânico aumentava e as nuvens de fumo sufocador tornavam cada vez mais critica a situação. Nesta conjuntura resolveu-se cortar o telhado do prédio, a fim de evitar a comunicação do fogo para os que lhe ficam contíguos.

Procederam a este serviço alguns dos bombeiros municipais, os porta-machados, e três carpinteiros das obras da barra, regulando os trabalhos o Eng.º João Thomaz da Costa (que viria a ser o Vice-Presidente da primeira Direcção e Presidente a partir de Janeiro de 1883), director das obras públicas do distrito. Foram então retiradas do pavimento superior do prédio incendiado muitas centenas de molhos de carqueja, que o fogo ainda não atingira. Concluído este serviço e quando o pessoal que o realizara tinha passado ao 2º andar, abateu uma porção de soalho, levantando-se então uma enorme labareda, uma língua de fogo, que produziu graves queimaduras nas pessoas presentes, ficando feridos, entre outros, o referido Eng.º João Thomaz da Costa, quatro porta-machados, o bombeiro Manuel Pinto de Campos, o carpinteiro José Ribeiro Taborda e Benjamim do Espírito Santo.

Prosseguiram depois os trabalhos de extinção. As bombas, sem cessar, inundaram tudo de água. No foco de incêndio, e sempre com grande custo, lançou-se uma grande porção de areia, que conseguiu amortecer a violência do fogo, que só nesta altura começou a ser dominado com vantagem.

Ao mesmo tempo retirava-se do armazém contíguo, e já por entre nuvens de fumo asfixiante, uma grande porção de latas de petróleo e barris de alcatrão, bem como se procedia ao despejo de importante depósito de cereais que António Pires Barbosa, negociante desta cidade, possuía junto e ao nascente do prédio incendiado.

Até às cinco da tarde continuaram, sem cessar, estes trabalhos e perto das seis suspenderam-se, porque o fogo parecia extinto e já se podia penetrar no armazém. Durante a noite ficaram ali as bombas, um piquete de tropa, a Companhia de Bombeiros e muitas outras pessoas, mas nada houve que desse a conhecer a continuação do fogo, o qual se dava já por completamente terminado.

Do edifício da alfândega, que fica nas traseiras do prédio em que o fogo causou tão avultados prejuízos, foram retiradas todas as mercadorias, mobília e arquivo das repartições.

O Governador Civil telegrafou para o Porto requisitando auxílio de material e pessoal habilitado. Depois como o incêndio declinasse, expediu ordem em contrário, e o comboio de socorro, que já estava preparado, vindo nele uma grande parte da Associação de Bombeiros Voluntários do Porto, não chegou a partir da estação de Campanhã.

No dia 29 daquele mês, vários cavalheiros da cidade, a fim de combinarem nos meios a adoptar para a organização de um corpo de bombeiros voluntários, reuniram-se na casa da Associação Comercial. Foi nomeada uma comissão encarregue de proceder aos trabalhos preparatórios, a qual ficou composta da seguinte maneira:

- Randolpho Rosmiro Correa Mendes
- António Adelino de Magalhães Moutinho
- Manoel José da Silva Couto
- Sebastião da Silva Neves
- Ventura Malheiro

No dia 15 de Maio, pelas 11 horas, realizou-se nas instalações do Liceu (hoje Escola Pluricurricular de Santa Maria Maior) uma reunião, que foi presidida pelo Governador Civil, Boaventura José Vieira. Foi apresentado o projecto de estatutos, que foi aprovado, e logo ali foi aberta inscrição de sócios das diversas categorias em que se dividia a Associação. Seguidamente procedeu-se à eleição da Direcção e Comando, ficando assim constituídos:

Presidente: Boaventura José Vieira
Vice-Presidente: João Thomaz da Costa
1º Secretário: José Maria Caldeira
2º Secretário: João José de Carvalho
Tesoureiro: António José Ferreira

1º Comandante: Randolpho Rosmiro Correa Mendes
2º Comandante: António Adelino de Magalhães Moutinho

Na respectiva acta foi lavrado um voto de louvor a Guilherme Gomes Fernandes, comandante da Companhia de Bombeiros Voluntários do Porto, pela delicadeza e boa vontade inexcedível com que se prestou a auxiliar a comissão instaladora, fazendo-lhe os mais relevantes serviços.


(1) - os BM tinham 3 bombas, das quais a mais recente a nº 35, tinha 25 anos e era a única que dispensava aguadeiros, por ter um absorsor de água para o rio ou poço. Só tinha uma saída de mangueira. Possuíam ainda uma pequena bomba, própria para trabalhar no interior das casas e uma carroça com material.
Os efectivos rondavam os 26 homens, que era considerado pouco para uma cidade com 9.149 habitantes e 2.075 casas (censo de 1878).


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